terça-feira, 6 de novembro de 2012

FRANKENWEENIE



    Dono de um estilo visual inconfundível, o cineasta Tim Burton esteve perdido em meio a excentricidades durante cinco anos, durante os quais lançou o esteticamente estonteante, porém fraco, Alice no País das Maravilhas e o recente e inexpressivo Sombras da Noite. Portanto, desde 2007 quando nos entregou o ótimo Sweeney Todd, no qual misturava competentemente seu apuro visual ao dom de contar uma trama com peso dramático, o diretor não apresentava um filme que contasse com suas melhores características como realizador. E não se pode deixar de observar que esta "volta" do cineasta se dá com uma animação, gênero no qual o diretor sempre se mostrou mais apto a dirigir do que suas obras live-action. Não que todos os outros filmes de Burton sejam defeituosos ou menos tocantes, acontece apenas que sua estética sombria característica se mostra muito menos chamativa em um mundo totalmente recriado. O que não acontece sempre com seus outros longas, onde às vezes o visual quase sempre elogiável e criativo é muito mais interessante que seus personagens ou histórias. Porém, quando Burton consegue equilibrar os dois lados, é notório que surjam obras como Edward: Mãos de Tesoura, Ed Wood, Peixe Grande, A Noiva Cadáver, Sweeney Todd, etc. Dito isso, Frankenweenie, embora possua suas ressalvas, surge como uma grande homenagem às figuras e o mundo que tanto inspiraram Tim Burton, e sem nunca soar pretensioso, também se dá ao luxo de referenciar a si mesmo.


     Adaptado do um curta-metragem homônimo que Burton dirigiu no início de sua carreira o longa conta a estória do tímido Victor (Charlie Tahan), que após perder seu cachorrinho de estimação, Sparky, tenta uma experiência científica para trazê-lo de volta da morte. Sendo bem sucedido, começa a ser perseguido por outros garotos querendo também trazer de volta seus falecidos mascotes.


     Voltando a homenagear clássicos filmes B de horror, coisa que já havia feito naquele que para mim figura como um de seus melhores trabalhos, Ed Wood, o diretor retoma a apresentação do filme em preto e branco, porém, diferente do que foi feito no recente O Artista, o cineasta prefere deixar seu escopo aberto e retangular, diferenciando assim do clássico formato quadrado que predominavam essas antigas produções. Isso, mais o fato de o próprio filme caseiro que Victor apresenta aos pais no início do longa ser em 3D, ajudam a estabelecer as intenções de Tim Burton, que atraí um público mais "estudado" para curtir suas referências e homenagens enquanto inclui elementos dos novos modos de se apresentar cinema durante a projeção para ganhar um público mais jovem ou casual, mesmo que faça isso discretamente, vide o já citado formato da tela.


     Já não tão sutis, porém não menos cabidas, são as referências e homenagens que o filme faz através da concepção e da nomenclatura de seus personagens. Assim, um garoto corcunda e totalmente assimétrico, que remete diretamente a Quasímodo, ganha o nome de Edgar, fazendo menção a um dos ídolos de Tim Burton, Edgar Allan Poe (que, aliás, lhe inspirou outro ótimo curta animado chamado Vincent, procure e veja!). Já outro menino ganha as características do famoso monstro Frankenstein, sendo concebido alto, com ombros largos e cabeça quadrada, enquanto o animal de estimação de outro colega de Victor é chamado de Shelly, referenciando a escritora Mary Shelley, que deu origem a este mesmo monstro na literatura, assim como uma poodle acaba ganhando inusitadamente mechas brancas nas laterais do pelo, se tornando uma divertida lembrança a A Noiva de Frankenstein. E claro que uma das figuras mais amadas do cineasta (e uma das mais ligadas ao macabro no cinema) não podia deixar de figurar nesta onda de homenagens, portanto, não demora até que o querido e esquisito (e olha que usar "esquisito" como adjetivo em um filme de Burton pode ser muito redundante) professor de ciência dos garotos, o Senhor Rzykruski, se apresente em tela como a forma animada de Vincent Price, quase como se fosse o ator a interpretar o papel ali, conceito que só é auxiliado pela dublagem excelente de Martin Landau que emula com talento a dicção e a eloquência tão características do falecido ator. E a escolha de Landau para viver o personagem não deixa de ser uma pequena homenagem do Burton a si mesmo, tendo em vista que ambos, o ator e o cineasta já haviam trabalhado juntos antes em Ed Wood, onde Landau interpretava o também já falecido Bela Lugosi.


     Menos mirabolante do que de costume, o design de produção do filme aposta em uma cidade de formas e tamanhos parecidos para transparecer o ar pacato do local, o que se não é totalmente original na filmografia do cineasta (vide Edward: Mãos de Tesoura), ao menos é funcional e ajuda a ressaltar a interessante concepção do cemitério de animais (Pet Sematary em inglês, outra referência será?) e seus divertidos túmulos personalizados.


     Porém, mesmo que carismático, Frankenweenie nunca apresenta um perigo, vilão ou conflito que realmente inspire alguma preocupação no espectador ou que faça a trama se desenrolar. E assim, ao final da sessão, é impossível evitar vê-lo como uma grande homenagem descompromissada, cuja trama e muitos dos personagens se perdem no esquecimento com extrema facilidade. O que nunca deixa de ser lamentável quando se pensa que Tim Burton é responsável por figuras tão icônicas como Beatlejuice, Edward, Jack, Suas versões do Batman, Coringa, Pinguim e Mulher-Gato, entre tantos outros. E para não dizer que todos fogem a memória imediatamente, a garotinha de olhos grandes e sinistros, cujas fezes de seu gato possuem um dom de vidência, marca presença justamente por estampar o melhor da concepção sombria, porém bem humorada do cineasta.


     Ganhando de Danny Elfman uma trilha que se limita a emular seus trabalhos anteriores (e melhores), baseando a música tema num coro de vozes de crianças que lembra e muito os de Edawrd: Mãos de Tesoura, Homem-Aranha e Alice no País das Maravilhas, o longa acaba fracassando na sempre esperada parceria do compositor com o diretor, que assim como o resto do filme, não é ruim e até diverte, mas serve só a si mesmo e suas referências. E no final, Frankenweenie por mais acertado que seja não faz mais do que nos lembrar de longas que se não são muito melhores, ao menos são mais memoráveis que esta nova animação de Tim Burton.


NOTA: 8/10

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