sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A FORMA DA ÁGUA


“Incapaz de perceber a Tua forma, eu te vejo ao meu redor”


Existe uma delicadeza inerente que atravessa a obra de Guillermo del Toro e denuncia no diretor um carinho especial pelos párias, os diferentes e estigmatizados - mais do que isso, há no cineasta uma vontade de testemunhar por eles e atestar que não é a aparência ou a natureza do indivíduo que o definem como digno de amor ou como merecedor da alcunha de monstro. Quando decide narrar o romance entre Elisa (Sally Hawkins) e o Homem Anfíbio (Doug Jones), o realizador mexicano faz de A Forma da Água o seu filme mais óbvio sobre o tema, ao passo em que relembra porque se consagrou um mestre criando histórias de fantasia que fogem da puerilidade habitual desse gênero e se entregam a um olhar mais adulto - não porque insere sexo e violência nas suas fábulas, mas sim porque adota sobre esses elementos a mesma perspectiva amadurecida, recorrentemente melancólica e, por vezes, brutal com que trata as demais características mágicas e sobrenaturais dos universos que concebe. Pois, no ímpeto de criar e observar contos de fadas através do ponto de vista das figuras relegadas às sombras deles, acaba construindo uma estranheza delicada que força o espectador a encontrar beleza onde antes era certa a repulsa e o medo. Assim, não deixa de ser poético (e nem um pouco por acaso) que seu novo projeto seja também uma declaração de amor à técnica do Cinema, que igualmente às criaturas inventadas por del Toro, é constituída tanto de luz quanto de escuridão.


Então é flagrante que ele escolha como protagonista uma mulher muda que se alia a outra que é negra, Zelda (Octavia Spencer), e ainda ao pintor homossexual Giles (Richard Jenkins) para salvar de um laboratório governamental o Homem Anfíbio, tendo de driblar para isso o perigoso chefe de segurança do lugar, Strickland (Michael Shannon) - pois dessa forma o filme articula claramente uma união de minorias contra o homem, branco, heterossexual, religioso e conservador. Mas se a ideia geral em si é óbvia, o que a torna tão eficiente é que del Toro parece realmente entender o cerne do conflito - não é o preconceito pelo preconceito que cria o ódio enraizado do vilão, mas a ignorância e o medo. Uma pessoa muda, por exemplo, muitas vezes é classificada como deficiente física por precisar se comunicar e interagir com o mundo de uma forma diferente da maioria - então por que quando um estrangeiro entra no país falando uma língua completamente diferente e alheio ao idioma local, isso não é considerado uma deficiência também? Levando ainda em conta que cada forma de comunicação carrega consigo toda uma cultura de hábitos e entendimentos diferentes sobre o mundo, deficientes não seriam então aqueles incapazes de se adaptar à diversidade?


Afinal, o mesmo pode ser dito da cor de pele de Zelda, da orientação sexual de Giles ou da natureza do Homem Anfíbio - são formas, comportamentos e configurações de corpos diferentes das usuais que padronizamos como as “corretas”, e que proporcionam aos indivíduos que as carregam experiências de vida diversas. A pergunta que del Toro e a roteirista Vanessa Taylor levantam é: por que não permitir que todas essas diferenças inundem o nosso universo pessoal? Que amarras absurdas são essas que colocamos nas pessoas ao nosso redor e em nós mesmos que predispõe um tipo de amor delimitado pela composição dos corpos, pelo modo que eles se expressam ou até pelo lugar de onde eles vieram? A água esverdeada onde encontramos Elisa pela primeira vez seria o símbolo dessa atmosfera de aceitação e liberdade? Pois não por acaso, é submersa nela que a moça se masturba e onde mais tarde ela mergulha para se unir enfim ao seu amado. O design de produção, junto ao diretor de fotografia Dan Laustsen, preenchem quase todas as imagens do longa com algum tom de verde, e o contraste fica a cargo do vermelho que passa a emergir aos poucos na roupa da protagonista, também vestindo a sala de cinema sobre a qual fica o seu apartamento. Aliás, é curioso que o mesmo vermelho que remete à paixão também seja um arauto do perigo - é a cor do sangue e da violência, tão presentes nesse universo úmido quanto o amor.


E Guillermo del Toro usa aqui ao máximo as potencialidades da sétima arte para contar a sua história - nesse sentido é quase uma piscadela para o espectador que a “base” sob os pés de Elisa seja um Cinema. Ele e Dan Laustsen, por exemplo, brincam com a luz e a tornam subjetiva aos personagens, aqui trazendo Elisa com uma faixa de luz estrategicamente colocada sobre os olhos molhados de choro, ali revelando o Doutor Hoffstetler (Michael Stuhlbarg, incapaz de ser menos do que excepcional mesmo quando em papéis menores) surgir das sombras inesperadamente - isso sem contar o momento mais escancarado (e belissimamente esquisito) que traz a heroína imaginando um número musical da Hollywood clássica em preto e branco ao lado de seu amor escamoso. Inclusive, del Toro não deixa de permear a narrativa com inserções espertas de filmes e músicas que não só estão contextualizados com a época (os anos 1960), como também com a temática.


Para dar ao conto o tom de fábula, del Toro concebe aquele mundo de forma lúdica, trazendo funcionários do governo com cortes de cabelo retos, espiões que se encontram em bares durante a noite e pessoas com comportamentos caricatos adversos - o homem que leva balões no ônibus, a colega de Elisa que sempre reclama da fila de bater o ponto, o dono do cinema que vive para alardear que o lugar não é frequentado por ninguém etc. Esses recursos e a ambientação quase sempre noturna garantem que o prédio habitado por Elisa tenha sempre esta aura mágica, que remete diversas vezes aos microuniversos de filmes como Delicatessen e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. E isso contrasta com a casa ensolarada e multicolorida da família de Strickland, que parece saída de um comercial da Coca-Cola na década de 1960, com direito a uma esposa modelo e devota ao marido e um par de crianças imaculadamente arrumadas. Michael Shannon, aliás, faz um trabalho incrível ao romper com essa ilusão e revelar no chefe de segurança comportamentos machistas, abusivos e recorrentemente racistas - traços também simbolizados pelos seus dedos remendados, que vão gangrenando mais com o passar do tempo. E quando o flagramos lendo um livro de auto-ajuda, fica claro que sua vilania provém da incapacidade de lidar com todos os diferentes tipos e opiniões ao seu redor, e do medo de um dia ser tratado da mesma forma que dispensa a eles.


Entretanto, é Sally Hawkins quem consegue ser a intérprete mais expressiva em cena, mesmo sem poder falar. Elisa impõe o tom do que diz na intensidade dos seus gestos, e seu olhar frequentemente dispensa qualquer frase. Ela parece querer tocar em tudo ao seu redor, denunciando seu olhar diferenciado sobre o mundo a sua volta, além de revelar uma simplicidade natural de sua personalidade em pequenas ações, como ao colocar seu chapéu na janela do ônibus para escorar a cabeça, ou no modo como dispõe os ovos na beira de um tanque. E o carisma da personagem só aumenta quando Hawkins tem a chance de interagir com seus colegas de cena, especialmente Richard Jenkins, que oferece uma performance delicada e tocante como o vizinho e amigo da moça - e o pequeno sapateado que dividem em certo instante diz mais sobre a relação dos dois do que qualquer diálogo seria capaz de expressar.


E se os monstros criados pela ficção quase sempre serviram de símbolo para algo exterior às obras que assombravam (os zumbis já levantaram a bandeira do consumismo desenfreado, o Godzilla já devastou as cidades no Japão assim como as bombas nucleares o fizeram também, e o próprio Frankenstein é o estandarte falho da fragilidade masculina inerente provinda da sua incapacidade de gerar vida), a criatura aquática de del Toro (vivida por seu parceiro habitual  Doug Jones, incrivelmente expressivo sob a pesada e excelente maquiagem) parece existir para nos lembrar de um problema muito mais básico, universal, óbvio e, ainda assim, tristemente contemporâneo (tanto aos anos 1960 quanto aos atuais): intolerância. Nem sempre os seres que habitam a escuridão são ruins apenas por isso, pois muitas vezes eles estão lá porque esse é o lugar para onde foram marginalizados. As mulheres, os deficientes, a comunidade LGBTQ e as diferentes cores de pele, mas também aqueles de diferentes religiões, opiniões políticas e os que sofrem com a pobreza ou a depressão - não deixa de ser simbólico, inclusive, que ao entrar em um breve confronto com o Homem Anfíbio, Giles acabe com os pulsos cortados.


É estranhamente adequado, portanto, que nos dias de hoje tenha sido necessário um monstro para simbolizar aquilo de que mais precisamos: amor. Pois, por mais piegas que seja a mensagem, é apenas enxergando as pessoas para além de suas formas, que as teremos todas ao nosso redor.


Nota: 10/10




quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

THE POST: A GUERRA SECRETA



Houve um tempo em que Steven Spielberg era um dos meus diretores favoritos. Quando seu nome vinha estampado no topo de um cartaz, era certo que aquele seria um dos filmes mais falados do ano. Entretanto, desde que lançou o excepcional Munique em 2005, o cineasta veio trilhando um currículo altamente irregular, do duvidoso Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal passou para o divertido As Aventuras de Tintim, que impressionava mais pela técnica. Seguiu-se a este os aborrecidos Cavalo de Guerra e Lincoln, cujos méritos pontuais não foram o suficiente para torná-los filmes mais interessantes. Já com Ponte dos Espiões o diretor se saiu melhor e mostrou que ainda tinha algum fôlego, mas tratou logo de desiludir seu público ao lançar O Bom Gigante Amigo, possivelmente o seu filme mais embaraçoso. The Post: a Guerra Secreta finalmente acaba com esse jejum de quase treze anos, e faz jus a reputação de um dos realizadores mais celebrados e icônicos do Cinema.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

VIVA: A VIDA É UMA FESTA


Não importa se a trama de um filme é clichê, mas sim se o modo como ela é narrada funciona e envolve o espectador. Mesmo os acontecimentos mais previsíveis podem receber uma nova visão e tornarem-se surpreendentes outra vez. Assim, quando Miguel, um menino pobre e cheio de sonhos acaba descobrindo por acidente uma passagem para um mundo mágico, naturalmente somos remetidos às trocentas vezes em que já assistimos essa mesma história antes. Então como é que Viva: A Vida é uma Festa parece recheado de frescor? Como é que as suas reviravoltas podem ser facilmente antecipadas e ainda cumprir com eficiência seus objetivos de tocar e comover? Ora, isso acontece porque o filme é pintado com as cores (vibrantes) de uma cultura muito diferente das que estamos acostumados a ver nas grandes produções hollywoodianas - e como nenhuma estética é desprovida de contexto, a nova animação da Pixar acerta por não apenas usar o Dia dos Mortos mexicano como roupagem para uma história “norte-americanizada”.

Não, o filme carrega consigo todas as diferentes percepções daquele povo sobre família, vida e, claro, sobre a morte. Então, por mais que repasse com delicadeza e competência as velhas lições sobre empatia e memória, o trunfo do projeto é realmente oferecer ao espectador a perspectiva de outra cultura sobre essas questões, o que, em última análise, desperta em nós justamente a empatia e a memória.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O REI DO SHOW


Hollywood tem esse problema de exaltar a trajetória de “grandes homens”, não importando quais tenham sido as consequências de seus feitos, desde que estes tenham sido brancos e, preferencialmente ricos. O Rei do Show não é foge muito disso e investe naquela velha trama meio contraditória do cara caucasiano, bem abastado e, claro, hétero, que salva um bando de párias rejeitados pela sociedade. A coisa é que o filme nem tenta esconder que P.T. Barnum, famoso criador do conceito de Circo como o conhecemos hoje, explorou as características incomuns de inúmeras pessoas para ganhar toneladas de dinheiro expondo-as para o público rir. Não que o projeto não tente passar a mão na cabeça do personagem, afinal, ele é vivido pelo Hugh Jackman; como condenar um dos atores mais carismáticos da Hollywood contemporânea? Mas o resultado final também não pode ser descreditado, e por mais que a mensagem em si chegue deturpada, é inegável que o filme funciona muito bem em determinados pontos, o que faz dele um musical eficiente.